Se a sua clínica atende pacientes em busca de tratamento para perda de peso, você já deve ter percebido como as opções terapêuticas para a obesidade estão evoluindo rápido. Quando o cenário parecia consolidado, laboratórios internacionais já testam a próxima geração de moléculas. A survodutida e a mazdutida puxam a fila como duas das “canetas” mais promissoras do momento.
As duas moléculas compartilham a mesma base: são agonistas duplos experimentais criados para ir além das opções já conhecidas. Mas cada uma traz seu diferencial. Enquanto a mazdutida vem sendo apelidada de “Mounjaro chinesa” pelo forte apelo na balança, a survodutida chama a atenção de especialistas pelo potencial único de reduzir a gordura no fígado.
Mas o que os estudos já revelam sobre essas moléculas? E quanto falta para elas chegarem aos consultórios brasileiros? A seguir, o My Smart Clinic compara os resultados dos estudos, os mecanismos de ação das moléculas e as perspectivas de aprovação desses tratamentos. Veja tudo o que você vai conferir:
- O que são survodutida e mazdutida?
- Como funcionam esses agonistas duplos?
- Quais são os resultados dos estudos com survodutida?
- Quais são os resultados dos estudos com mazdutida?
- Quais as diferenças entre survodutida ou mazdutida?
- Survodutida e mazdutida estão aprovadas no Brasil?
- O que os médicos devem considerar ao interpretar os estudos?
Se as canetas atuais já mudaram o tratamento da obesidade, o que esperar da próxima geração? E, entre a survodutida e a mazdutida, qual delas pode trazer os avanços mais relevantes para a prática clínica? Vamos aos estudos.
O que são survodutida e mazdutida?
A survodutida e a mazdutida são fármacos experimentais estudados para o tratamento da obesidade. Ambos são agonistas duplos (GLP-1 e glucagon) administrados via injeção subcutânea semanal, formato semelhante ao de canetas como Ozempic e Mounjaro.
Os dois já chegaram na fase 3 dos estudos clínicos, a última etapa de testes em humanos antes de a fabricante solicitar a aprovação às agências reguladoras. Nessa fase, os pesquisadores avaliam a eficácia e a segurança dos medicamentos em grupos maiores de pacientes, podendo compará-los com placebo ou outros tratamentos.
A mazdutida, aliás, já obteve sua primeira aprovação regulatória na China pela National Medical Products Administration (NMPA) para o controle da obesidade em adultos. A survodutida segue em estudos para tratar a obesidade e se destaca pelo potencial de reduzir a gordura no fígado, o que lhe rendeu designações especiais de órgãos reguladores internacionais.
O que é survodutida?
A survodutida é uma molécula injetável experimental desenvolvida pela Boehringer Ingelheim em parceria com a Zealand Pharma para o tratamento da obesidade e do sobrepeso. Mas o que a torna especial? Ela não serve “apenas” para emagrecer.
Nos estudos clínicos, a survodutida apresentou um efeito pouco comum entre as canetas emagrecedoras atuais: o potencial para reduzir diretamente a gordura acumulada no fígado.
Esse acúmulo é conhecido como doença hepática esteatótica ligada à disfunção metabólica (MASLD). Um quadro silencioso que pode evoluir para inflamação (MASH), fibrose e até cirrose.
Ou seja, a survodutida aponta para uma nova geração de tratamentos que buscam ir além do ponteiro da balança, atuando diretamente nas complicações metabólicas da obesidade. Vale lembrar que a molécula segue em investigação antes de se tornar uma opção prescritível no mercado.
O que é mazdutida?
Conhecida na internet por apelidos como “Mounjaro chinês” ou “prima chinesa do Mounjaro”, a mazdutida ganhou essas alcunhas por seu potencial para emagrecer e por agir em dois receptores ao mesmo tempo.
A diferença é que, no lugar do GIP, ela ativa o receptor de glucagon, envolvido no metabolismo energético. Vale ressaltar que, apesar das semelhanças, os dois medicamentos não tiveram sua eficácia comparada diretamente.
Desenvolvida pela chinesa Innovent Biologics em parceria com a Eli Lilly, a mazdutida é um peptídeo sintético inspirado na oxintomodulina, hormônio que o intestino libera após as refeições. Aplicada por injeção uma vez por semana, foi aprovada na China para o controle do peso e do diabetes tipo 2. A Eli Lilly detém os direitos de desenvolvimento e comercialização fora do país.

Como funcionam esses agonistas duplos?
Os agonistas duplos vão além. São uma única molécula, desenhada para ativar dois receptores ao mesmo tempo. No caso da survodutida e da mazdutida, o do GLP-1 e o do glucagon. Não se trata de misturar dois remédios no mesmo frasco: os dois efeitos já vêm combinados na própria molécula.
É como combinar o controle da fome com um possível aumento do gasto de energia:
- Ação nos receptores de GLP-1: aumenta a saciedade, reduz o apetite e atrasa o esvaziamento do estômago.
- Ação no receptor de glucagon: é estudada por seu potencial para aumentar o gasto energético e influenciar o metabolismo das gorduras no fígado.
É essa combinação que torna as duas moléculas promissoras, embora seus efeitos sobre o peso e a saúde do fígado ainda precisem ser confirmados em estudos clínicos.
Diferenças em relação à semaglutida e à tirzepatida
À primeira vista, a survodutida e a mazdutida lembram o Ozempic e o Mounjaro: também são injetáveis, de aplicação semanal, e ajudam a emagrecer, mas são menos parecidos do que parecem. A diferença está nos receptores hormonais que cada molécula ativa e nos efeitos que os pesquisadores investigam.
A semaglutida (Ozempic e Wegovy) age só no receptor do GLP-1. A tirzepatida (Mounjaro) soma o GIP. Já a survodutida e a mazdutida combinam GLP-1 e glucagon.
É essa segunda via que chama a atenção: além de reduzir a fome, elas podem influenciar o gasto energético e o metabolismo das gorduras. Em um estudo de fase 3, a survodutida reduziu em até 63,1% a gordura hepática após 76 semanas.
Em perda de peso, por ora, elas ainda não mostraram superar a tirzepatida: a survodutida chegou a 16,6% em 76 semanas, e não há comparação direta com o Mounjaro. O interesse, portanto, está nos possíveis efeitos sobre a gordura visceral e a hepática, e não só no número na balança.
Veja como os quatro medicamentos se comparam em relação aos receptores, aos efeitos estudados e à situação regulatória:
| Medicamento | Receptores | Diferencial | Situação |
| Semaglutida | GLP-1 | Controle do apetite e aumento da saciedade | Disponível no Brasil |
| Tirzepatida | GLP-1 + GIP | Atua em duas vias hormonais ligadas ao apetite e à glicose | Disponível no Brasil |
| Survodutida | GLP-1 + glucagon | Resultados promissores sobre peso e gordura visceral e hepática | Em estudo |
| Mazdutida | GLP-1 + glucagon | Potencial para perda de peso e efeitos metabólicos | Aprovada na China, não no Brasil |
Quais são os resultados dos estudos com survodutida?
A survodutida está em fase 3 de desenvolvimento clínico, com estudos internacionais que avaliam seu potencial para tratar a obesidade, inclusive em pessoas com diabetes tipo 2. Também está sendo investigada para doenças hepáticas associadas à disfunção metabólica.
Entre os estudos mais recentes estão o SYNCHRONIZE-1, com 725 adultos com obesidade ou sobrepeso acompanhados por 76 semanas, e o SYNCHRONIZE-MASLD, que avaliou 218 pessoas com obesidade e doença hepática metabólica por 48 semanas. Os resultados foram publicados no New England Journal of Medicine e na Nature Medicine. Em outubro de 2026, também foram publicados dados do SYNCHRONIZE-2, com adultos que tinham obesidade e diabetes tipo 2.
Os resultados ampliam o que já se sabia sobre a molécula: além da perda de peso, há sinais de melhora nos indicadores de gordura no fígado. Veja o que as pesquisas mostram até agora.
Resultados para obesidade e controle de peso
No estudo de fase 3 SYNCHRONIZE-1, acompanhado por 76 semanas, a survodutida levou a uma perda média de até 16,6% do peso corporal em adultos com sobrepeso ou obesidade, sem diabetes tipo 2.
Exames de ressonância magnética também mostraram uma redução de até 34% na gordura visceral, que fica entre os órgãos. A perda de massa magra representou uma parcela pequena da redução total de tecido corporal.
Os resultados são promissores, mas ainda não demonstram superioridade em relação a medicamentos como a tirzepatida.
Estudos em doença hepática metabólica
No estudo de fase 3 SYNCHRONIZE-MASLD, que acompanhou pacientes por 48 semanas, 84,2% dos participantes tratados com survodutida reduziram pelo menos 30% da gordura hepática. No grupo placebo, esse índice foi de 24,3%.
Além disso, 61% dos participantes terminaram o tratamento com a gordura do fígado abaixo de 5%, faixa considerada normal neste exame. No grupo placebo, isso ocorreu com 5,7% dos participantes.
Eventos adversos e descontinuação do tratamento
Como é comum nessa classe de medicamentos, os efeitos colaterais foram predominantemente gastrointestinais (náuseas, vômitos e diarreia), no geral leves a moderados e mais frequentes na fase de ajuste de dose.
A tolerabilidade, porém, é um ponto de atenção: cerca de 19% dos participantes interromperam o tratamento por efeitos gastrointestinais em resultados de fase 3 divulgados em 2026, contra 2,9% no grupo placebo. Esses dados mostram por que a avaliação da segurança é tão importante quanto a eficácia antes de uma possível aprovação.
Quais são os resultados dos estudos com mazdutida?
A mazdutida está em fase 3 de desenvolvimento clínico e já foi avaliada em estudos realizados na China, tanto em pessoas com obesidade quanto em pacientes com diabetes tipo 2.
Entre os resultados mais recentes estão o GLORY-2, que investigou a perda de peso com uma dose de 9 mg, e o DREAMS-1, que avaliou o controle da glicose durante 24 semanas. As pesquisas também avaliaram efeitos sobre outros indicadores metabólicos. Veja os principais resultados:
Resultados para obesidade e controle de peso
No estudo de fase 3 GLORY-2, após 60 semanas de tratamento com 9 mg de mazdutida por semana, os participantes tiveram redução média de 16,65% do peso corporal, contra 1,5% no grupo placebo. Entre os participantes sem diabetes tipo 2, a perda média chegou a cerca de 20%.
Resultados em pacientes com diabetes tipo 2
No estudo DREAMS-1, após 24 semanas, a hemoglobina glicada caiu 1,57 ponto percentual com a dose de 4 mg e 2,15 pontos com a de 6 mg. O peso corporal também diminuiu: a redução média foi de 5,61% e 7,81%, respectivamente.
No GLORY-2, a mazdutida também melhorou indicadores cardiometabólicos, incluindo pressão arterial e níveis de lipídios no sangue.
Eventos adversos e limitações das evidências
Os relatos de efeitos colaterais seguiram o padrão da classe (náusea, vômito e diarreia leves ou moderados), com baixíssima taxa de desistência por esses motivos (2,9%).
Uma limitação importante é que os principais estudos foram realizados na China. Pesquisas com outras populações ajudarão a entender se os resultados se repetem em diferentes contextos, já que fatores metabólicos e hábitos alimentares podem influenciar os resultados.
Survodutida ou mazdutida: quais são as diferenças?
Survodutida e mazdutida são tão parecidas no papel que muita gente trata as duas como a mesma coisa: ambas são agonistas duplos de GLP-1 e glucagon, injetáveis e de aplicação semanal. Mas não são iguais. São moléculas diferentes, criadas por laboratórios diferentes, e que se encontram em diferentes estágios. Veja na tabela o que separa as duas:
| Ponto de Comparação | Survodutida | Mazdutida |
| Laboratório | Boehringer Ingelheim e Zealand Pharma | Innovent Biologics e Eli Lilly |
| Principais estudos | Obesidade e doença hepática | Obesidade e diabetes tipo 2 |
| Média de perda de peso | 16,6% (76 semanas) | Cerca de 14% (dose de 6 mg, 48 semanas) e 18,5% (9 mg, 60 semanas) |
| Onde foi estudada | Estudos globais multirregionais | Principalmente na China (Fase 3) |
| Situação regulatória | Em desenvolvimento clínico | Aprovada na China para obesidade e diabetes tipo 2 |
Survodutida e mazdutida estão aprovadas no Brasil?
Não. Nenhuma das duas tem aprovação da Anvisa, então não podem ser vendidas nem prescritas como medicamento no país.
As duas ainda são medicamentos experimentais, em fase de testes clínicos. Isso significa que os estudos seguem em andamento e que a segurança e a eficácia ainda estão sendo avaliadas pelas autoridades de saúde.
No mundo, só a mazdutida chegou ao mercado: foi aprovada na China, e apenas lá. Já a survodutida não foi aprovada em nenhum país até agora.
Por isso, qualquer produto vendido no Brasil com o nome de uma das duas não tem registro nem garantia de origem, qualidade ou dose.
Por que medicamentos em investigação não devem ser prescritos?
Medicamentos em investigação não devem ser prescritos fora de ensaios clínicos autorizados, pois ainda não têm segurança e eficácia suficientemente comprovadas para uso geral.
O desenvolvimento de um medicamento passa por diferentes fases de testes. As fases iniciais avaliam a segurança e as doses; estudos maiores, como os de fase 3, investigam a eficácia e identificam efeitos adversos menos frequentes. Mesmo resultados promissores não substituem a avaliação regulatória.
Também é preciso ter cuidado com medicamentos importados. A aprovação por uma agência estrangeira não autoriza automaticamente a venda ou o uso do produto no Brasil. Sem registro ou autorização aplicável da Anvisa, não há garantia de que ele atenda às exigências sanitárias brasileiras. Produtos vendidos pela internet como peptídeos para pesquisa podem ter procedência, concentração e pureza desconhecidas, aumentando os riscos à saúde.
O que os médicos devem considerar ao interpretar os estudos?
As pesquisas trazem resultados promissores, mas é importante considerar quais pacientes participaram, as doses utilizadas e a duração de cada estudo.
O DREAMS-3, por exemplo, já comparou diretamente a mazdutida com a semaglutida e encontrou resultados superiores para a mazdutida. Entretanto, o estudo envolveu adultos chineses com diabetes tipo 2 e obesidade, durante 32 semanas.
Ainda faltam comparações diretas mais amplas, especialmente com a tirzepatida (Mounjaro) e envolvendo a survodutida. Por isso, os dados disponíveis não permitem estabelecer qual desses tratamentos é o mais eficaz para todos os perfis de pacientes.
Manter-se atualizado sobre essa nova geração de agonistas ajuda os médicos a acompanhar as evidências e as possibilidades terapêuticas que surgem.
A diversificação amplia as opções de tratamento, mas a escolha deve partir das necessidades do paciente, não da novidade do medicamento. Histórico clínico, doenças associadas, medicamentos em uso e objetivos individuais orientam a decisão. Uma opção pode trazer melhores resultados para uma pessoa e não ser a mais adequada para outra. Por isso, o tratamento da obesidade deve ser sempre individualizado.
Sua rotina permite acompanhar de perto cada paciente?
A survodutida e a mazdutida representam uma nova geração de agonistas duplos, que combinam a ação dos receptores de GLP-1 e glucagon. Diferem de canetas como o Ozempic, que age só no GLP-1, e do Mounjaro, que combina GLP-1 e GIP, por apostarem no glucagon para somar gasto de energia e redução da gordura do fígado.
A mazdutida já é aprovada na China, e a survodutida ainda não tem aval em nenhum país. No Brasil, as duas seguem sem aprovação da Anvisa. Enquanto elas não chegam, os médicos já contam com várias opções de agonistas registradas no país.
E a escolha depende menos do princípio ativo e mais do paciente: histórico, exames, medicamentos em uso e objetivos. O tratamento é sempre individualizado. O desafio é acompanhar essa jornada individual sem deixar que registros, ajustes e retornos se percam na rotina.
O My Smart Clinic simplifica essa rotina: o prontuário inteligente resume consultas com IA, guarda todo o histórico e oferece fichas personalizadas e modelos prontos, com prescrição pela integração à Memed.
A plataforma ainda reúne agenda, telemedicina, assinatura eletrônica e ferramentas para acompanhar as finanças e a rotina da clínica. Assim, você concentra diferentes tarefas em um só ambiente e ganha mais tempo para o cuidado com os pacientes.
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